terça-feira, 30 de junho de 2009

O início

Na escuridão da noite sem estrelas, numerosos batalhões de nuvens cinzentas varrem o céu.
A cidade está em silêncio, na noite só se ouve o barulho distante e abafado dos carros. Vez ou outra escuto ruídos próximos, o pronto susurrar me faz lembrar o piar das corujas. Me lembro que não estou sozinha: na parede ao lado, vizinhos conversam sobre a falta de luz. Com tantas luzes acesas durante as noites, nos esquecemos de aproveitar o silêncio da escuridão. Com tantos sons costumeiros, nos afastamos do momento contemplativo de sono, invertemos a ordem natural das coisas. E que lástima: ao encher de luz o negrume da noite, o sol pode perder um pouco do brilho...
Sozinha em meu quarto, risco um isqueiro. O crepitar do cigarro de palha faz estalos que me agradam. A brasa queimando perto da face faz corar minha tez clara. Me agrada o calor. Me conforta. A fumaça sobe e segue pela janela, perdendo-se em meio às nuvens-sentinelas.
Hoje, pela primeira vez, escrevo à luz de velas... Sentimento de nostalgia e completude. Uma lembrança que talvez não seja minha, como se essa, de fato, não fosse a primeira vez.
O papel amarelado é iluminado pela chama de uma vela vermelha. A luz vacilante e corajosa resiste às rajadas de vento, que entram golpeando pela fresta aberta da janela: chama e cortina bailam em dança ritmada e feroz.
O quarto branco ganha um tom quente, terno, protetor. A mente trabalha frenética, dando significações a tudo o que se move, a tudo o que respira e pulsa. Permaneço parada enquanto lembranças oscilam no ritmo dessa noite, desse vento regente: maestro.
E é com imensa maestria que a memória funciona e sacode dentro de mim fagulhas.
- É a persistência e erupção de um sentimento. É uma força que agita a alma e a faz mover-se pela ponta da caneta, imprimindo em preto a escuridão que habita nessa noite.
A lembrança da luz brinca na memória, no pulsar do coração vermelho: que regojiza-se e derrete feito cera de vela.
-Basta essa pequena centelha dourada para esquentar e iluminar as páginas: e minhas palavras.

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