quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tempo Afora


E é fato: quem canta, os males espanta.
Tá aqui o meu mantra de hoje...
Dá-lhe seu Neyma! ADOOOORO!
E sinta daí o 'muito obrigada' que lanço daqui.



Onde mora a ternura, onde a chuva me alaga
Onde a água mole perfura a dura pedra da mágoa:
Eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora
Eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora

Quando o carinho acontece, quando a garoa é macia
E se cura e se esquece a dor num canto vazio
Eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora

Onde a alma se lava, aonde o corpo me leva
Onde a calma se espalha, onde o porto me espelha
Eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora
Eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora

Quando me lembro de tudo, quando me visto de nada
E me chove e descubro quanto você me esperava
Eu tenho o tempo do mundo, tenho o mundo afora!

Tensão


Esses últimos dias têm sido bem tensos. Mas não teria como ser diferente. Resolvi fazer as coisas do meu jeito, no meu tempo, e tenho tenho a plena consciência de que o Tempo é diferente pra todas as pessoas. O que complica é a dificuldade em sincronizar os tempos diversos do mundo, pra tudo fluir com normalidade e calma.
Nada está calmo, e eu luto muito pra não perder a minha calma.
Mas tá difícil.
Ô, se tá.
E o mais incrível é que eu estou cheia de energia, animada mesmo, e o que me frustra é não ter onde dispersar essa energia acumulada... Namorada, querida, onde está vc?! ;D

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rasgação de seda, assumida.

Quando minha cabeça está quente como uma panela de pressão, prestes a explodir, eu dou um break e vou fazer alguma coisa útil e mais leve. Descobri que a melhor coisa pra aliviar a tensão nesse processo de produção de um filme é pensar sobre o filme, torná-lo claro, preciso. Ando fazendo e refazendo um processo chamado planificação, que consiste em esmiuçar as cenas em planos fotográficos, numa tentativa de saber exatamente o fazer quando da gravação. Acho que é uma excelente forma de relaxar. Fico mais segura do que vou fazer.

Mas quando canso de ficar imaginando e viajando no papel, coloco algum filme pra rodar. Tenho reassistido muitissimas vezes os (meus) grandes clássicos do cinema. E, pra mim, o maior clássico é Cidadão Kane. Nossa, eu adoro esse filme! Sou uma grande fã de Orson Welles. Vivo buscando pra assistir o 'Dom Quixote' dele, seu filme inacabado, mas até hoje fui frustrada nas buscas. Robert Stam, num livro muito bom chamado "A literatura através do cinema", fala bastante de Welles e de seu Quixote. E só pelos escritos de Stam, eu tenho certeza de que o filme é um desbunde cinematográfico. Babo no trabalho criativo de Welles, e espero conseguir importar um pouco de sua genialidade para o meu humilde filminho. E já que comecei a falar sobre o mestre, vou continuar... Na babação de fã, que fique claro.





Parafraseando o título de um documentário nacional recente, a pessoa é para o que nasce. E, dentre os grandes cineastas que já existiram, Orson Welles foi um prodígio. Nasceu para o cinema e o cinema, em certa medida, nasceu pelas mãos habilidosas do diretor. Para além da discussão que gira em torno de quem utilizou primeiramente a profundidade de campo como recurso fílmico expressivo (Langlois aponta Griffith como o pioneiro), a verdade é uma só: Orson Welles foi um gênio do cinema.

Cidadão Kane é um filme indispensável para quem gosta de cinema, para quem se interessa minimamente pelos encantos da sétima arte, pois encerra em seus fotogramas em movimento o uso de muitos dos recursos lingüísticos que hoje, comumente, fruímos quando assistimos a qualquer título. Welles foi um ‘arquiteto’ da linguagem cinematográfica. Valendo-se de seu imenso poder criativo ele narra a história de Charles Kane de uma forma brilhante, mesclando linguagens de outras mídias e fazendo do cinema uma profusão de referências e significados, mas para além de uma colagem. Uma biografia de um magnata excêntrico que nem de longe consegue ser entediante. Antes de assistir ao filme, tinha sérios problemas em encará-lo como algo interessante... Tinha meus preconceitos, não sou fã de filmes biográficos. Mas este filme me deixou em estado de catarse (palavrinha que os amigos de cinema adooooram utilizar ;p). Welles extrai do cinema aquilo que existe de intrinsecamente cinematográfico.

A estrutura narrativa do filme utiliza-se de flash-backs constantes e de uma fragmentação dos pontos de vista. Existem diálogos memoráveis, o próprio Welles atua no filme, no papel do magnata morto. Para ‘costurar’ os muitos episódios da vida Charles narrados, existe a figura de um repórter que sai em busca do significado da última palavra proferida por ele: Rosebud. Tenho vontade de ler o roteiro de Cidadão Kane, escrito na década de 40... E incrívelmente moderno.

A imersão no filme de Welles é tão grande que, para a apreciação, a busca pelo significado do nome sai de cena e fica perdida até os instantes finais do filme: quando o segredo é revelado apenas a nós, espectadores. Durante o filme, muitos personagens são requisitados para que falem de seu passado com Kane. Os episódios são tão ricos e bem estruturados que, quase todas as vezes, existe uma suspensão do tempo da narrativa: o espectador esquece que aquilo se trata de um relato, relembrando desse fato só quando a personagem que conta a história volta novamente ao quadro. Existe um humor ácido e crítico durante todo o filme, característico de Welles.

O uso expressivo dos movimentos de câmera, da luz e da fotografia mantém-se soberbo até os dias de hoje, quando as técnicas aplicadas por Welles já são corriqueiras e interiorizadas pelos realizadores. O filme mantém-se atual e encanta aos que sabem de sua história, como marco no cinema mundial (observando os movimentos de câmera tão fluidos e elegantes... nem dá pra imaginar que as câmeras e equipamentos utilizados eram jurássicamente ENORMES), e para aqueles desavisados que assistem arbitrariamente: a perícia técnica de Welles é clara, e sua capacidade de contar histórias valendo-se da linguagem do cinema também.